Bilíngues tem massa cinzenta mais densa.
Aprender uma segunda língua modifica de fato a anatomia do cérebro. E, quanto mais cedo se aprende, maior a modificação, segundo uma pesquisa relatada na edição de hoje da revista cientifica britânica "Nature".
O achado é uma comprovação neurológica de algo que qualquer imigrante que tenha filhos sabe muito bem: crianças tendem a aprender idiomas com mais facilidade do que adultos.
Pesquisadores do Reino Unido e Itália fizeram imagens por ressonância magnética funcional do cérebro e constataram que os bilíngues tem uma densidade maior da chamada "massa cinzenta" na região cerebral conhecida como córtex parietal inferior esquerdo.
"O grau de reorganização estrutural nessa região é modulado pela proficiência obtida e pela idade de aquisição", afirmam Andréa Mechelli e colegas do Departamento Wellcome de Imageamento de Neurociência, de Londres, e da Fundação Santa Lúcia, de Roma, que assinam o estudo.
Densidade
O objetivo da pesquisa era testar a densidade das massas cinzentas e branca do cérebro. A primeira é composta principalmente por corpos celulares ("cabeças") de neurônios, e a segunda, pelas "caudas" de células nervosas. É chamada de branca porque contem mielina, um lipídio que ajuda a conduzir impulsos nervosos.
Os primeiros testes foram feitos com pessoas que tinham o inglês como língua nativa. Foram recrutados 25 monoglotas com pouca exposição a línguas estrangeiras; 25 bilingues "precoces", isto é, que aprenderam uma segunda língua européia antes de cinco anos de idade e continuaram praticando; e 33 bilíngues "tardios", que só aprenderam outra língua entre os 10 e os 15 anos. Todos os voluntários tinham idades e grau de educação semelhantes.
Não houve diferença em relação à massa branca, mas a densidade da cinzenta foi maior ainda entre os bilíngues "precoces".
O segundo teste envolveu 22 voluntários que tinham o italiano como língua nativa e aprenderam inglês entre 2 e 34 anos de idade.
Suas habilidades em leitura, escrita compreensão e conversa foram testadas.
Os pesquisadores descobriram que o grau de proficiência correspondia exatamente ao grau de densidade da matéria cinzenta no córtex parietal inferior esquerdo.
E que, quanto mais cedo se aprendia a segunda língua, maior o efeito sobre aquela área do cérebro.
Já se sabia por estudos anteriores que essa região do cérebro é ativada durante a realização de tarefas ligadas à fluência verbal. "Esses efeitos podem resultar de uma predisposição genética para maior densidade, ou de uma reorganização estrutural induzida pela experiência". Afirmam os autores da pesquisa.
Ainda não se sabe o que causa a densidade maior. Pode ser o aumento do tamanho das células nervosas - os neurônios -, da sua quantidade ou das conexões entre elas. "Esses resultados são consistentes com as evidencias crescentes de que o cérebro humano se modifica estruturalmente em resposta a demandas do ambiente", concluem os pesquisadores.
O próximo passo da equipe vai ser estudar o cérebro de pessoas com dificuldade para aprender línguas e também de poliglotas, para checar se o aumento da densidade é proporcional ao número de línguas faladas.